A ‘Gestão por Valores’ nasce em resposta às alterações que se têm vivido no ambiente competitivo. Tradicionalmente, o mundo dos negócios tinha mercados claramente demarcados por fronteiras geográficas e regionais, mas agora tem a globalização das empresas e da concorrência. Eram nítidas as diferenças entre trabalhadores e gestores e ajustada a organização hierárquica, mas hoje as estruturas são achatadas e as diferenças entre os colaboradores (os chamados trabalhadores do conhecimento), esbatem-se.

Num ambiente de maior volatilidade e dinamismo, cuja turbulência faz aumentar a incerteza e a ambiguidade nas empresas, os valores funcionam como âncora e criam uma linguagem comum que permite alinhar as pessoas e a liderança. Os valores são crenças duradouras que influenciam as escolhas que se fazem entre meios ou fins alternativos.

Por outro lado, os trabalhadores deste início de século procuram organizações que tenham um relacionamento baseado na honestidade, na confiança, na integridade e no respeito mútuo, organizações das quais se possam orgulhar. Não é por acaso que há cada vez mais estudos sobre as “melhores empresas para se trabalhar” e onde os valores acima citados têm um papel central.

Muitos dos pressupostos da relação de trabalho tradicional foram alterados. Por um lado, a necessidade de manter a competitividade e de se ajustar às flutuações da procura, faz com que as empresas não possam garantir estabilidade/segurança de emprego. Por outro lado, já não é possível, dada a complexidade tecnológica, que os gestores façam uma microgestão, ou seja, estejam constantemente a dizer aos seus subordinados o que devem fazer e como devem fazer. É necessário, por isso, que haja estratégia e valores, que guiem os colaboradores. Estes têm que ser capazes de exercer iniciativa, assumir responsabilidades, atingir resultados e comunicar eficazmente, com colegas e clientes. Falamos pois de uma organização com “empowerment”!

Este livro de Simon Dolan e Salvador Garcia, “Gestão por Valores”, foca precisamente o papel dos valores partilhados numa organização: como eles servem para dar direcção aos colaboradores, para facilitar a compreensão dos acontecimentos e problemas e a descoberta das respostas adequadas, e ainda, como eles funcionam de alavanca da mudança organizacional.

As empresas precisam de líderes que transmitam um propósito e uma direcção, firmemente assentes em valores mobilizadores. Mas é também crucial que estes valores sejam não só expressos, mas também vividos pela organização e pelos seus gestores. Quando as declarações de valores organizacionais correspondem a meras operações de relações públicas, politicamente correctas, não se reflectindo nas práticas e nos comportamentos dos gestores, os colaboradores tornam-se cínicos relativamente à empresa e os seus gestores perdem a credibilidade!

Os valores profundos duma organização podem de facto diferenciá-la dos concorrentes e ser a base da sua identidade. Estes valores são diferentes dos aspiracionais ou ideais, ou seja, aqueles que a organização necessita para ser bem sucedida a longo prazo, embora não possua no momento.

Este percurso de mudança é o tema da “Gestão por Valores” de Dolan e García, que fornecem ao leitor um ‘mapa das estradas’, começando por definir o conceito e aplicando-o à mudança organizacional, sem deixar de abordar os aspectos práticos da sua aplicação.

É uma obra ambiciosa, escrita por dois reputados especialistas, num estilo simples, directo e de leitura fácil. É uma obra pedagógica, que pretende responder às dúvidas de quem tem que liderar ou gerir processos de mudança. É uma obra cuja leitura recomendo vivamente!



Rita Campos e Cunha
Professora Associada, Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa
Prémio RH Investigação 2005